Regresso do Reprimido

“We stand upon the brink of precipice. We peer into the abyss – we grow sick and dizzy. Our first impulse is to shrink from the danger. Unaccountably we remain.”

Edgar Allan Poe, “The imp of perverse”, in The Completed Illustrated Works of Edgar Allan Poe , p. 441

Esperar pode ser, por vezes, uma atitude paradoxal. O aforismo reflecte essa dualidade: se esperar desespera, então, porquê a espera? Mas esperou-se.

Depois da licenciatura em Lisboa, na Clássica, em 1983, o grupo de heróicos finalistas não pensou em continuar os estudos. Esperavam esses românticos semeadores de cultura as escolas do país (nesse tempo, era fácil começar a leccionar), meia-dúzia de turmas e um ordenado ao fim do mês, que as contas começavam a andar atrasadas. (Em 1985, Bret Easton Ellis publicava Less than Zero , o primeiro romance de uma obra marcante que, quase um quarto de século mais tarde, iria ser objecto de análise do agora jovem finalista que, de momento, tinha outras preocupações em mente.)

Por questões de sobrevivência tornaram-se mais importantes o verbo to be e a Passiva (a simples e a Outra) do que Poe, Melville e Hawthorne. Esses continuaram a protagonizar a cadeira de Literatura Americana, passeando o espírito, duas vezes por semana, pelos corredores daquele degradado Pavilhão de Germânicas, na voz mediúnica da Prof.ª Teresa Alves.

Os precursores do Gótico Americano ficaram, assim, por vias das circunstâncias, adormecidos no inconsciente do jovem estudante de letras, que passou a professor de línguas e, entre outras coisas, a marido e a pai de três filhos. Ficou latente um desejo: o de, um dia, ir buscar o passado onde ele tinha ficado, aparentemente, enterrado.

s ansiedades por resolver, as frustrações trancadas a sete chaves numa qualquer cave da nossa mente, as situações que, por serem terríficas e/ou demasiado sublimes, se tornam, contraditoriamente, indizíveis mas, ao mesmo tempo, impossíveis de amordaçar para sempre, acabam por vir à superfície, num movimento quase erotizante, que nos deixa suspensos, incrédulos, assustados, apaixonados.

Basta um acontecimento. Simples, mas intenso.

Com a oferta deste Curso de Mestrado pela Universidade de Évora, no ano lectivo 2005/2006, o ouro veio sobre o azul e o passado encontrou-se, finalmente, com o presente.

Poe continuava, fielmente, à minha espera.

Primeiro sente-se o impulso. Depois, a vontade irreprimível de dar o passo em frente, como se uma força inexplicável nos impelisse para o mal. Parados é que não podemos ficar. Valeu a espera. Rasgaram-se mais amplos horizontes. Abriram-se novas perspectivas.

Amar a Literatura não é apenas amar os livros.

João Luís Nabo

Nota biográfica:

Nasceu em Montemor-o-Novo em 1960 e é professor efectivo na Escola Secundária de Montemor-o-Novo. Frequentou a Academia dos Amadores de Música de Évora, onde estudou piano. Foi organista oficial da Igreja Matriz de Montemor-o-Novo, de 1979 a 1990, professor de piano e director do jornal regional “Folha de Montemor” de Outubro de 1989 a Abril de 2003. Fundou o Coral de São Domingos em 1987, do qual continua a ser Director Artístico.

Foi tenor do Coral da Universidade de Lisboa, onde trabalhou sob a direcção de Francisco D'Orey e José Robert; frequentou cursos de direcção coral e técnica vocal onde estudou com Elisete Bayan, Vianey da Cruz, Maria João Serrão, Idalete Giga, Anton de Beer e Edgar Saramago.

Compôs para teatro e para coro. São de sua autoria várias peças sacras, interpretadas regularmente pelo Coral de S. Domingos, estando uma delas incluída no segundo trabalho discográfico do grupo. Publicou dois livros sob a chancela da Editorial Tágide, de Lisboa: Alentejo sem Fim – Contos (2004) e O Lago e Outra História Depois (2005). Tem colaborado nos últimos anos como articulista de vários jornais regionais do Alentejo.

É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Clássica de Lisboa e é aluno do Curso de Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas , na Universidade de Évora, na especialidade de Literatura Norte-Americana. Sob a orientação da Prof.ª Maria Antónia Lima, encontra-se presentemente a desenvolver a sua investigação com vista à elaboração da sua dissertação de Mestrado com o tema: O Escritor e o seu Duplo na Obra de Bret Easton Ellis.

Links complementares:

http://coralsaodomingos.blogspot.com/

http://www.escritacriativa.com/

http://sol.sapo.pt/blogs/chicodabatuta/default.aspx

http://pt.wikipedia.org/wiki/Coral_de_S%C3%A3o_Domingos

http://music.download.com/coraldesodomingos/3600-8874_32-100289346.html

DELENDA EST LITERATURNOST

0. Estudar o literário, marcar os passos no labirinto; cintar o livro, apertando devagar o couro envolvente; possuir o corpo envolvente, despojando-o de luz e mergulhando-o nas sombras; manusear com cuidado.

1. Pascoaes: “Uma lágrima explica a estranha Criação. / Profundai-a, e vereis a misteriosa origem / Dos mundos e dos sóis. E um grito de aflição / Deixa-nos surpreender, ó luz, teu corpo virgem!”

2. Primeira promessa: farei da Literatura a minha luz, remergulhá-la-ei nas trevas da página lisa, emergirá nova e brilhante, rebaptizada no aço gelado de multidões de centelhas. Ficarei em silêncio. Recuperarei um corpo virgem.

3. Segunda promessa: serei deliciosamente enganado. Ficarei agarrado ao visco das imagens. Saberei entender Wittgenstein: “A nossa linguagem descreve primordialmente uma imagem. O que há a fazer com esta imagem, como é que se aplica, fica no escuro. Mas é óbvio que isto tem que ser investigado, se queremos compreender o sentido da nossa asserção. A imagem parece poupar-nos esse trabalho; já sugere uma determinada aplicação. É com isto que nos engana.”

4. Capturarei as imagens, pretendo decompô-las e sublimar-lhes o líquido vermelho. Pisarei seus cadáveres e reduzi-los-ei a simulacros. Com eles, comporei um golem no telhado do sentido. Ficará encoberto até se cumprir o próximo ciclo da água.

5. Tentarei a criação. O grito da acção. A dor do corte com o nada em direcção ao novo nada. Relembrar a cosmogonia do gesto que origina a palavra. O braço que actualiza a página. A mão que guia o pensamento e que rodeia o seu pescoço. Apertá-lo com a corda do labirinto.

6. Poiesis do labirinto – a doce certeza do inalcançável. Saber que o labirinto existe, sem centro nem paredes. Cercá-lo de sebes baixas e de fragmentos inexoráveis. Como a criação. Os animais infames a devorarem a topiária e a deixarem vestígios de ramos no chão, posteriormente levados no lombo de quimeras e cinocéfalos.

7. Terceira promessa – não invocarei os animais fantásticos, os animais proto-evangélicos. Deixá-los-ei a ruminar em paz esses ramos, a digerir pacientemente a sua literalidade, a regurgitar os sons do início do cosmos, do tempo dos vulcões e da iluminação dos vácuos, da criação da matéria negra.

8. Manuel Frias Martins: “Por analogia com a composição do universo, irei designar por matéria negra o mundo de pluralidade imanente que possibilita a literatura”

9.A linguagem possibilita a literatura. Dá-lhe posse, nomeia-a, incendeia-a, cava-lhe uma sepultura, planta-lhe uma cruz, exila as suas cinzas. Retorno à criação. Recria-se sem se reciclar. Percorre todos os ecopontos sem encontrar a cor correspondente.

10. Recuperar o manuseio, recuar às fontes. Reescutar o silêncio das esferas. Antecipar as vibrações das cordas, dos buracos negros, dos cometas, dos quarks . Atiçar o lume das super-novas. O vácuo das palavras. Ser e Estar na infância.

11. Quarta promessa – traçarei com os dedos o rasto das palavras. Nascerão cravos e girassóis vermelhos em todos os dedos.

12. Silvina Rodrigues Lopes: “Porque o poema escrito separa-se daquele que o escreveu. Dispersa-se, distancia-se. E a beleza, «coisa sem nome», vai nele, na sua tinta de vozes do mundo (vozes de outros poemas, vozes dos outros e voz de quem escreve são indiscerníveis na memória)”.

13. Quinta promessa – guardarei essa separação. Farei jejum até ao fim do mundo. Saberei aguardar a beleza ensurdecedora em silêncio. Terei tempo, entregar-lhe-ei o coração (J.T.Mendonça).

14. Discordo de Tolentino: a beleza não nos salva. A literatura não nos salva. Simone Weil não se fez baptizar por ter percebido que a beleza já estava salva. Evitar a desnecessária inutilidade. A beleza cobre-nos de vácuo, de sombras, a beleza sacode-nos da mesa depois do banquete. Simone morreu de fome e de felicidade, eternamente à espera.

15. Não desejamos ser salvos. A palavra não nos salva. Na arena, o imperador decidia a vida ou a morte através do polegar. O leão devorava com sofreguidão nos calores do meio-dia. Os rios continuavam a marchar para o mar ou para os outros rios.

16. Jakobson: “Assim, o objecto da ciência da literatura não é a literatura, mas a literariedade, isto é, o que faz de uma determinada obra uma obra literária”.

17. Derrida – “Chamarás poema a uma encantação silenciosa, à ferida áfona que de ti desejo aprender de cor. (…) Nunca há senão poema, antes de toda a poiese” – Wilde – “A Arte busca a perfeição dentro, e não fora, de si mesma. Não pode ser julgada por nenhum padrão exterior de semelhança. Não é um espelho, mas um véu. Tem flores que nenhum jardim conhece, e aves que nenhum bosque possui.” – Heidegger – “Levantando-se em si mesma, a obra abre um mundo e mantém-no numa permanência que domina. Ser obra quer dizer: instalar um mundo.” – Walter Benjamin – “A obra é a máscara mortuária da concepção”.

18. Sexta promessa – aconteça o que acontecer, desejarei não ser salvo. Ficarei distanciado no limbo da arte, aguardando a chegada do dilúvio e a instauração do buraco negro. Não derramarei lágrimas. Vestirei de bronze, a túnica do meu luto. Serei servido pelos Anjos e afivelado pelos Manes.

19. Releio a Poética. A patética deferência dos fracos perante a névoa escura do incompreensível. Coleccionarei traduções, sem língua limada ou gazua para rilhar as grades. Releio a República. Os Parerga e Paralipomena . Toda essa bacia azul de cacos rachados em água a aquecer ao sol, sujando de terra o fundo marinho.

20. Sétima promessa – serei arqueólogo. Frequentarei desenho técnico, conviverei com o pó, as colunas esbeiçadas, o mármore estriado, os peixes fossilizados no fundo do lago. Cairão lágrimas na descoberta de um palimpsesto. Riscarei a negro mais um lugar no mapa, avançarei para a máscara trágica que adorna a fonte. Não serei digno de beber dessa água. O bocal estará seco. A seara clássica a dispersar-se no horizonte.

21. T. S. Eliot: “He who was living is now dead / We who were living are now dying / With a little patience”.

22. Cruzo nas mãos as promessas e espero sentado. Elas vagam pela minha cabeça. Meteoritos na paisagem obscura, formam a barreira de asteróides, os cálculos da existência. Já sem candeia, leio na autobiografia de Maiakovski: “Eis-me quite contigo. / E é inútil o passar em revista / penas, / azares, / e recíprocas feridas. / Vê, / que paz no universo. / A noite / impôs ao céu / a servidão de tantas / tantas estrelas”.

23. A Criação observa-me e ri, é a figura da Morte do poema de Pascoaes. Eu, o doido.

24. Mas é Daniel que relembro, por fim: “Nunca cumpras todas as promessas. É um modo muito triste de morrer”.

Blog : www.lusios.blogspot.com

Leça, 11 de Março de 2007

Francisco S. Fino

 

Interview with the Vampire (1994)

Os meus motivos

Durante muito tempo acalentei a ideia de me inscrever num curso de Mestrado. Sendo da área das Humanidades, sabia que tal escolha me seria benéfica para uma eventual progressão na carreira, mas também tinha muito presente a ideia de que nunca seria capaz de iniciar um tal empreendimento sem ser por gosto pessoal. Após cinco anos na Licenciatura em Ensino de Português/ Inglês, já tinha uma boa ideia do que era trabalhar a valer e, a partir do momento em que comecei a minha actividade profissional, nas escolas, a escolha de iniciar novamente aulas na Universidade seria muito difícil, pois previa que seria difícil conciliar ambas as actividades. Além disso, a instabilidade profissional que me levou a percorrer o Baixo Alentejo, por cinco anos, em cinco povoações diferentes, ainda tornava o risco maior. Desta forma, tomei a decisão de aguardar por um Curso de Mestrado que realmente me despertasse o interesse e valesse o risco.

Ano após ano, e porque não queria ter de me deslocar para Lisboa ou Coimbra para poder fazer um mestrado na área das Línguas e Literaturas – a minha área preferida –, aguardei com ansiedade o desenvolvimento de um projecto nesse campo, promovido por uma Universidade no Alentejo. Tendo estudado na Universidade de Évora, foi com imensa satisfação que tomei conhecimento do Curso de Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas. Finalmente, surgia um curso que me levava a dedicar, pelo menos, dois anos da minha vida, a um projecto de Mestrado, onde tenho pesquisado sobre Literatura de Vampiros.

Primeiro que tudo, o que me despertou a atenção foi o leque de escolhas ao dispor dos mestrandos. Agradou-me a variedade de opções, quer na área de especialização, quer nas disciplinas optativas que poderíamos escolher no ano curricular e que abrangiam muito mais áreas do que eu alguma vez previra. Assim, e porque permitia uma maior interdisciplinaridade e partilha de experiências entre pessoas com formação académica diferente, e, logo, um maior enriquecimento cultural, embarquei nesta aventura e, até à data, não me arrependi da decisão. Sim, podem dizer que, neste momento, talvez não seja a melhor escolha para um professor inscrever-se num mestrado, dado que os benefícios para a progressão na carreira já não são o que eram. No entanto, para quem quiser ter uma boa experiência pedagógica e cultural, não há que hesitar nem recear o trabalho a desenvolver. O ano curricular foi muito satisfatório, sobretudo pelas diferentes ligações que pude desenvolver entre a literatura, o cinema, a pintura e outras artes, que achei fascinante e que me abriu muitos horizontes. Além disso, a troca de experiências entre colegas e professores foi muito enriquecedora e a variedade de opções de trabalho estimulante.

Tem sido realmente um desafio, mas, com um pouco de boa vontade e organização, tudo se leva a bom porto. Por isso, força, embarquem nesta aventura! Julgo que não se irão arrepender.

Nome - Paula Cristina Damásio Lagarto

Data de Nascimento – 13 de Maio de 1977

Habilitações Académicas - Licenciatura em Ensino de Português e Inglês, concluída a 25 de Maio de 2000, com a classificação de 16 valores, pela Universidade de Évora.

•  Professora do Quadro de Nomeação Definitiva:

Ano lectivo 2005/ 06 e 06/ 07 – Ensino da Língua Portuguesa ao 3º Ciclo e Secundário, na Escola 2,3/S Dr. João de Brito Camacho de Almodôvar.

Paula Lagarto

24 de Abril de 2007

 

H. P. Lovecraft

Não é fácil explicar o motivo exacto que me levou a pensar ingressar num mestrado. Poderá ter sido aquele sentimento de inquietude de quem ensina o verbo “To Be” às oito da manhã, recapitula os pronomes pessoais aos alunos do ensino secundário a meio da manhã e à tarde, se tiver sorte, poderá partilhar algumas frases em inglês com uma “boa” turma. Antes de mais, um mestrado perfilava-se como um estímulo intelectual face à rotina instalada. Nada tenho contra as rotinas, sendo até raras neste nosso conturbado e constantemente “reformado” sistema educativo. Contudo, já tinham decorrido quase nove anos desde o final da licenciatura e uma certa nostalgia, aguçada pelas visitas ocasionais a Évora fazia-me pensar num retorno, apenas adiado por uma certa incompatibilidade entre os meus gostos pessoais e as áreas temáticas até então disponíveis.

Nas recordações que persistem dos tempos de aluno universitário, algumas tendem a ocupar um espaço mais privilegiado do que outras. Sem desprimor para as restantes disciplinas, das quais, na esmagadora maioria dos casos, guardo boas memórias, a disciplina de literatura norte-americana, particularmente o seu seminário, persistia mais claramente do que as outras. O motivo era, paradoxalmente, o “brilho da negritude” da corrente mais gótica na literatura americana, rio largo, talvez mais largo do que em qualquer outra literatura. Devo então dizer que foi esse “impulso para o perverso” que me levou a tomar a decisão de dedicar-me a fundo ao estudo do “terror cósmico” de Lovecraft. Não me arrependi. Confesso que apesar da complicação causada aos normais horários tem sido bastante bom voltar a sentir-me estudante em Évora e ampliar conhecimentos que estavam já um pouco empoeirados e adquirir outros. Também é gratificante ler e estudar aqueles autores que, por um motivo ou outro iam sempre sendo adiados. Por isso, a quem ainda não conseguiu dar o passo decisivo, digo-vos: - Atrevam-se! Decerto encontrarão neste mestrado bons momentos e motivos de sobra para semanalmente voltarem às aulas. Eu encontrei.

José Carlos Gil é professor de Inglês na E.B. 2,3/S Dr. João de Brito Camacho de Almodôvar, vila onde também reside. É casado, tem 32 anos e conta com quase dez anos de serviço, pertencendo ao Quadro de Zona Pedagógica do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral. Realizou o ensino básico e secundário em Almodôvar e Beja e o ensino superior na Universidade de Évora onde se encontra a frequentar o Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas.

Ler, bandas desenhadas, jornais, revistas, panfletos, livros, no geral tudo o que nos transmite uma ideia, tudo o que nos conta uma história, nos dá um facto, é uma das actividades mais encantadoras e que mais conhecimento nos transmite. Saber da vivência dos outros que nos rodeiam, de outras latitudes e de outros mundos reais e imaginários, dá-nos o sentido da importância que temos no Universo. Ao longo da vida foi com enorme satisfação e maravilhamento que universos pessoais, novas realidades, algumas tão próximas e outras tão distantes, se apresentaram nos livros que li. A leitura dos livros trouxe uma nova dimensão pessoal, uma nova perspectiva do Homem muito mais ampla, complexa e apaixonante do que aquela a que estava habituado nas minhas cercanias. Muito antes de poder viajar pelo planeta o conhecia já, e mesmo em alguns casos, talvez para além da visão de outrém, não vá conhecer esses locais. Cedo, também, outra questão chegou: como será esse processo de transmitir por palavras, de forma sempre única e harmoniosa, mundos e visões? Porque se escreve e o que se reflecte mais intimamente na escrita de cada um dos autores que li? Se por vezes temos a resposta de forma empática, uma visão global do processo da escrita e do que é a Criação Literária, uma sistematização de conhecimentos, tornava-se premente. O Curso de Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas veio responder a essa necessidade. Na sua estrutura curricular, deu-me uma visão multidisciplinar do que é a Criação Literária, dos seus encontros e desencontros, dos caminhos que percorreu, e ajudou-me a reflectir de forma mais crítica e fundamentada sobre o que é a literatura.

António Fernando Cabrita do Nascimento é o meu nome. Nasci em Évora, em Junho de 1964, cidade onde fiz a maior parte do ensino primário, o ciclo, ensino secundário, e onde me licenciei em Português/Inglês, via ensino, na Universidade de Évora, em 1998. Foi também na Universidade de Évora que tirei, em 1988, o Curso de Formação de Guias Turísticos. Em 2005/2006 frequentei o Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas, mais uma vez na Universidade de Évora, amor recorrente desde os 12 anos, dos tempos do Liceu, ainda no Espírito Santo, estando neste momento a preparar a minha tese de dissertação em Literatura Inglesa Contemporânea, com orientação da Professora Doutora Ana Clara de Sousa Birrento. Nos últimos catorze anos tenho desempenhado a minha carreira profissional de professor de Inglês por terras alentejanas, do interior ao litoral, onde fixei residência na nova cidade de Vila Nova de Santo André, a escassos dois km do mar, onde calmamente se ouve, no descansar da noite, as ondas a baterem na praia.

O terror é um dos elementos, inscritos na nossa sociedade, que pretendia estudar e sobre ele reflectir: como se faz, se recebe, se deixa influenciar e dominar; como se encontra na criação, nomeadamente na literatura e no cinema. Era, também, na relação com os instrumentos de criação (de e com as letras) que sentia a míngua de um contacto mais composto!

Este curso de mestrado seduz pela abrangência (necessária) que contém: tanto a Literatura Norte-Americana Contemporânea como um caminho desenhado pela Criação Literária Contemporânea (nos seus vários domínios e abordagens), se prestam a contribuir para um ónus delineado por temáticas e preocupações que são reflexo de uma vivência (obrigatória) com a actualidade. Nesta possibilidade de aliar a necessidade reflexiva com o apuro criativo, este curso presta-se a esse pequeno (grande) passo: o de corroborar para uma movimentação de preocupações nem sempre consideradas, eventualmente pela sua emergência e/ou tipologia expressiva.

“Fear and worry ... are part of the intimate life of the individual.

In extreme forms, they lead to social paralysis, arrant prejudice and rigidity of outlook.”

( in “ A History of terror – fear and dread through the ages ” de Paul Newman )

Hugo Coelho

Porquê um poema que não o é?

de forma a incrementar um percurso!

Por um lado,

a reflexão ( obrigatória ) sobre a movimentação,

por outro, ou o mesmo,

noçõ( e )s instrumentais de criar, ( necessária ).

Esse (três) caminho

(o da reflexão-criação-de agora),

unidos e comungados,

pode(m)-se encontrar aqui ,

no...

Defrontamo-nos com o medo

instalado.

Medo esse que,

pela ansiedade e perturbação,

será personagem nuclear do ( obviamente desfragmentado ) terror abordado!

Cariátide

Liberta-te da pedra! Rebenta

a caverna que te escraviza! Lança-te

extasiada pela campina! Escarnece das cornijas –

olha: pela barba do sileno ébrio,

do seu sangue eternamente fervilhantes

sonoro único perpassado de ecos,

goteja vinho no seu sexo!

...

de Karyatide , Gottfried Benn (tradução de João Barrento)

Pequena nota Biográfica:

Hugo Coelho é membro fundador e director da ExQuorum, que acolhe os projectos Encontro de Ani+, Projecto de Investigação, CorpoCriações e Scandilatin-edição.

É licenciado em Estudos Teatrais pela Universidade de Évora . Frequenta, em 2002, o Institut del Teatre em Barcelona nas áreas da encenação, interpretação e cenografia.

Estagia profissionalmente com os Artistas Unidos, nas áreas da produção e dramaturgia ( colaborando também com a Comissão de Leitura dos Artistas Unidos e a edição da Revista), em 2005, onde tinha desenvolvido, em 2004, o seu trabalho fim de curso (concentrando-se sobretudo na dramaturgia contemporânea - acompanhando a montagem de Entertaining Mr. Sloane de Joe Orton - e na escrita do texto teatral “O Verde de Uma Pedra Qualquer”).

Desenvolve trabalho, na área da animação socio-cultural, com a Lattings Kulturforeningen (Suécia); a Associação Pim!Taí; o centro ATL das Caritas em Évora; a Oficina da Criança da Câmara Municipal de Viana do Alentejo e a Escola Básica 1º Ciclo de Aguiar, entre outros.

Inicia-se, na prática teatral, como actor no Grupo Cénico da SOIR, tendo colaborado com, entre outros, Julieta Aurora Cruz, Teatro PIM, Grupo NuOvo, PVC (Barcelona) e Associação Ruínas.

Frequenta, ao longo dos últimos anos, várias acções de formação com, entre outros, Giuseppe Bertolucci, Yvon Bonenfant, Gemma Beltran, John Mowat, Jorge Alonso, Alin Legros, Luz da Câmara, Jorge Sobral Pinto, H.G. Hogstedt e Jonas Ullberg.

2gotasdesuor.blogspot.com

Image:Head (1948).jpgFrancis Bacon, Head I (1948)

“We're all not quite as sane as we pretend to be.”

Robert Bloch, Psycho.

London: Bloomsbury, 1999, p. 150.

Durante os nossos tempos de criança, fomos bombardeados por histórias com bruxas más, princesas maquiavélicas e animais estranhos e malignos. Nesses contos, os “bons” ganhavam sempre…. Mas, e se simpatizássemos com os “maus” e até quiséssemos que os príncipes, anões e outros seres cujos nomes vinham acompanhados do sufixo “inho”, simplesmente … morressem?

Quando, no segundo ano do curso, vi incluída na lista de disciplinas algo com o belo e “numérico” nome de Literatura Inglesa I e II, estava longe de imaginar que iria estudar alguns daqueles seres que sempre me fascinaram. Entrei, então, em contacto com o Mr Jekyll e o seu companheiro Hyde, deambulei pelo castelo de Dracula e conheci o laboratório de Frankenstein. Já no quarto ano, a escolha do Seminário em Literatura Norte-Americana deveu-se ao programa da cadeira, que abarcava os mais terríveis monstros literários da “Terra do Tio Sam”, que tanto nos geram repulsa como uma incontornável atracção, talvez por serem tão verdadeiros ou tão próximos da nossa “controlada” psique.

Três anos após ter terminado o curso, encontrei neste Mestrado uma maneira de actualizar as minhas “conversas” com estes seres maquiavélicos da Literatura, alguns deles transportados para o Cinema. Fui muitas vezes questionada, por colegas de outras áreas de estudo, se tal temática não me assustava. Curiosamente, e, até ao contrário do que eu desejaria, fui concluindo que tais personagens não me despertavam qualquer receio, mas um fascínio infindável e uma admiração incontornável, sempre acompanhada de um estranho pensamento: “Quem me dera ter esta coragem!”.

Talvez o ser humano seja mais terrível quando controla a sua perversidade, tornando-se num “discreto homem-bomba”, num “calmo louco”… pronto a explodir…

Vilma Serrano

Nota Biográfica:

Vilma Serrano nasceu em 1978, em Coimbra, e vive na Marinha Grande.

Licenciou-se em Ensino de Português e Inglês pela Universidade de Évora, em 2002. No seu quinto ano, adiou o estágio e aceitou a bolsa Erasmus/Sócrates, que durante um semestre a levou até à Universidade de Bristol, na Inglaterra, onde voltou no Verão do mesmo ano para realizar um curso intensivo de Inglês.

Tem leccionado cursos de formação profissional e aulas de Inglês e Português.

É aluna do Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas , na Universidade de Évora, e encontra-se a elaborar a dissertação de Mestrado intitulada Os impulsos perversos na ficção gótica de Donna Tartt , sob a orientação da Professora Maria Antónia Lima.

João Araújo

Aluno da Área de Especialização em Teoria da Criação Literária Contemporânea

Encontrei no Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas uma distribuição curricular com características transdisciplinares. Este aspecto, presente num curso de nível superior, me atraiu bastante, já que buscava concretizar objectivos de elaboração de um trabalho académico com necessidades mais abrangentes. Gostaria de realizar uma Tese que relacionasse de alguma forma a Literatura com a Ciência e que fosse um convite a discussões entre a Ciência e as Artes, devido a minha formação inicial em Física Teórica. Neste Mestrado pude encontrar possibilidades de diálogo, por exemplo,  entre a Biologia, a Psicologia, a Física, a Filosofia e as Artes em geral.

Tudo o que foi dito até agora

Ainda corre feito água...

É como um rio visto de fora...

Sua corrente passa e alisa o vento,

Há gotículas que se desprendem e beijam a face de alguém...

Mas só eu, que mergulhei naquele leito obscuro,

Sei da profundidade não revelada por sua nascente...

Segundo Pessoa, “A Arte nasce sempre de alguma paixão ”. Tendo em conta a abrangência dos termos implicados – Arte e paixão - , ousaria relacioná-los com todo e qualquer impulso das nossas vidas. É sempre em resultado de uma paixão e em função da ambiguidade dor/ prazer, que o termo encerra que decidimos, agimos e enveredamos por este ou aquele caminho, ainda que à priori possamos apenas imaginar os obstáculos e os prémios que iremos encontrar.

A opção pelo caminho do estudo das criações artísticas na área da literatura contemporânea resulta, em primeiro lugar, de uma necessidade urgente de combater a inércia, a excessiva dormência que se instalara na minha forma de pensar e ler a literatura. Uma necessidade sentida logo após a conclusão, em 1998, da licenciatura em ensino de Português/ Inglês, na Universidade de Évora. Na altura ficou aquela sensação de ‘quero mais'. Até porque cinco anos passam depressa e há muito de nós para amadurecer e muitos conceitos novos para adquirir e pouco tempo para saborear, devidamente, as surpresas que vamos colhendo. As surpresas de quem descobrimos ser, quando nem o supúnhamos, as surpresas do eco que as palavras dos outros podem ter em nós e de como isso nos pode transformar ou pelo menos incentivar a ir mais além. É essa paixão pelo alcance que a palavra limada, estudada, amarrotada, serve-não-serve, enfim, suada pode ter, quando usada em literatura, que me faz, sete anos mais tarde (dizem que de sete em sete anos há lugar a uma crise na nossa vida, com poder catártico e regenerador), regressar a Évora, ao Departamento de Linguística e Literaturas, à Casa Cordovil, à matriz da minha formação académica e , estou certa, ao lugar onde o meu crescimento pessoal e humano se forjou, bem como as amizades que ficaram até hoje. Algumas delas reencontradas na primeira edição deste mestrado, o que é evidência bastante reveladora da confiança e expectativa depositadas nos responsáveis pelo mesmo, por parte daqueles que ‘conhecem os cantos à casa'.

Reencontro que serviu igualmente para reavivar a memória dos tempos de estudante, categoria da qual não abdicámos ainda hoje, mesmo que o estatuto seja o de professores, embora esses tempos sejam, agora, revividos de forma menos inconsciente e agitada, mas mais desassossegada.

Desassossego é a medida certa da inquietude sentida agora, na fase da elaboração da tese, período de efervescência de ideias, labirinto onde nos perdemos vezes sem conta para encontrarmos, depois do ‘caminho caminhado', as respostas possíveis com que mitigamos a fome de palavras e o vazio aterrador da página em branco que nos interroga sobre “ Escrever o quê? Não perguntes (…) Escreve e não perguntes. Escreve para te doeres disso, de não saberes. E já houve resposta bastante”.

E penso que é quanto basta exigir de um curso de formação complementar e dos seus orientadores: incentivo, apoio e rigor na consciencialização do pouco que sabemos e somos, e do muito que ainda podemos aprender para sermos.

Nota:FERREIRA, Vergílio. Pensar, Bertrand Editora. 2004. p. 73.

Sandra Piçarra,

aluna da 1ª edição do Mestrado em Criações Literárias Contemporâneas ,

na área de especialização em Literatura Portuguesa

2005/ 07

 

 

Salvador Dali , O Enigma Infinito

O milagre dos regressos

Um dia o cansaço devolveu-me o que Sócrates chamara de ignorância. A certeza de nada saber levou-me a abraçar um rumo ousado e pedregoso. Há quem lhe chame Estudos Pós-graduados; eu chamar-lhe-ia apenas regresso . Regressar para sair da dolência e permanecer viva, animicamente viva – viva. Contudo, quis encetar um regresso não a um passado estático e imutável, mas ao que de móvel ele me pode oferecer no presente. Foi esta confluência miscigenada que procurei há dois anos na planície alentejana, e que encontro todos os dias neste misto de deserto e mar.

O passado, a memória, a experiência constituem esse fundo de irrealidade que, semelhante a um feixe luminoso, aclara este momento de agora, revela como ele é cheio de surpresa, como já se destina à memória e é já essa incontrolável gramática sonhadora. (…) É com este sistema de imagens fundamentais, onde se vão enxertando novas constelações de outros lucros da experiência, que se enfrentam as hipóteses do mundo .

Estas palavras de cariz metaliterário de Herberto Hélder ilustram o que a minha demanda pelos meandros deste regresso me propuseram: algo mais do mundo, no mundo, pelo mundo, com todos os invólucros com que pode o mundo revestir-se, sejam eles factuais ou ficcionais, diacrónicos ou sincrónicos, mnemónicos ou imaginários.

Foi assim que me inventei em Évora – eu que pertenço a este lugar tão rodeado de azul –, em busca de Criações Literárias Contemporâneas, com outras cores, com novos rostos. Na Madeira tudo é líquido e escorreito, verde e ascendente; voei, pois, para drenar a saudade, esta saudade de livros e saber, ou melhor, dos mistérios do saber.

Confesso que foi e continua a ser a minha catarse ou o meu pequeno milagre dos regressos: regresso à busca de algo mais neste hiato que fica em nós, alguns anos após a conclusão de uma licenciatura, e regresso(s) nas várias idas e vindas cujas visões me purgam e apaziguam a alma.

Encontrei rostos e palavras embriagadas de literatura, e regressei sempre com textos completos de sede e labirintos. Não podia pedir mais nada: eram-me constantemente lançados enigmas que lutava por decifrar. Hoje sei que menos sei ainda, e sorrio por pensar que era esse o regresso pelo qual há muito errava…

Ana Brígida F. Ferreira

Mestranda em Criações Literárias Contemporâneas

Para o episódio muito estranho, porém familiar, que vou contar espero solicitude e crença. É minha intenção revelar aos olhos do mundo, de forma verdadeira, uma série de factos que, embora inesperados, podem invadir a normalidade do quotidiano. Louca seria não admitindo que os meus próprios sentidos o negaram no início, mas urge libertar-me deste testemunho, que longe está de ser horrífico pesadelo.

Ao estilo de E. A. Poe, “O gato preto”, Contos Fantásticos, 2002. Guimarães Editores Lda.

 

Era Março e H. P. Lovecraft caía nas minhas mãos, sob a forma de At the Mountains of Madness. Nele, li a riqueza e beleza da língua inglesa servindo cenários estranhos, grotescos, medonhos. Soube a pouco. Ficou a vontade de mais.

Mais tarde, estava o Verão alentejano a cumprir o seu papel (nada de novo) quando chegou a frase: “Dá uma vista de olhos a esse folheto e depois falamos”. E eu li , uma vez mais, atentamente. E fiquei curiosa (até aqui, também nada de inaudito). Bem... Mais do que isso, na verdade: fiquei desassossegada.

E depois falámos (e aqui já o futuro prometia a mudança, mas ainda com resistências) E depois candidatei-me (oh, a perversidade consumada!). E depois começou um novo momento, em que discutir criadores e criações, paradoxos, horrores e terrores se mostrou mais interessante e fascinante do que alguma vez havia sido.

Lovecraft passou, assim, a ser apenas mais um do círculo de muitos nomes que giraram nos meus sonhos.

O mestrado em Criações Literárias Contemporâneas da Universidade de Évora tem sido, na verdade, uma espécie de criador em si mesmo, sendo que me venho considerando como a sua própria criação : vejo-me hoje como o resultado de um horizonte vastíssimo de novas perspectivas, de novos conhecimentos, de novas questões. Lá para trás, espreito a memória de um tal Poe, de uma Annabel Lee e de um corvo, visitados ainda em tempos de escola secundária. Vejo também o muito que ficara por pensar sobre as vozes provocadoras dos livros, polifonias de símbolos e de discursos de autores / narradores / personagens. Vejo, ainda, uma licenciatura em Estudos Ingleses e Alemães que pecara por várias lacunas, como a de não ter uma cadeira de literatura norte-americana moderna ou contemporânea.

Pouco tempo me bastou para pressentir a saudade do lado de estudante, sobretudo quando o outro, o lado de professor, satisfaz mas não preenche por inteiro. E também para essa saudade a possibilidade de fazer este mestrado foi uma resposta muito convincente.

Senti-me bem-vinda a um universo quase inesgotável de diálogos entre as artes, de palavras e sentimentos indizíveis, de alteridade, de paranóias, de escuridão, de extremos, de segredos, de paredes e casas cheias de simbolismos (este tema é de eleição!); bem-vinda a um castelo que jamais deverá ruir, se houver quem tenha amor à sua urgente solidez: a Literatura!

Vera Guita, montemorense convicta, nasce a 26 de Junho de 1980. Passa os primeiros dezoito anos de existência em Montemor-o-Novo, ocupada entre a escola, aulas de piano, teatro e ballet (que não duraram tanto).

Mais do que tocar música, é tocada pela música e, por isso, canta desde os seis anos no Coral de S. Domingos de Montemor, a grande paixão musical que se mantém até hoje.

Em Setembro de 1998, inicia o ritual de fazer malas todos os Domingos, para partir a caminho de Lisboa. Lá, tem à sua espera a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, para uma licenciatura em L.L.M.- Estudos Ingleses e Alemães. A meio desse capítulo fixam-se o desejo e a certeza de seguir a via educacional e impõem-se, afinal, não quatro, mas seis anos de Carris, Transtejo e almoços na cantina. A pressa no regresso a casa tem de passar a segundo plano – passa sempre, quando se percebe que as oportunidades não estão onde se quer, estão onde pode ser.

Depois de um ano de estágio, em 2003/2004, foi a capital que lhe abriu, uma vez mais, a porta (tão rara e difícil por estes dias), e é na Escola Alemã de Lisboa que está até hoje, tentando transmitir o encanto (e também o quebra-cabeças gramatical) da língua de Camões aos jovens estrangeiros daquele estabelecimento de ensino.

Deixar Entrar o Silêncio

De olhos cerrados, num autocarro, até me perder. Vazio, indigente, puro, regresso suplicando compai-xão. É tarde. O crepúsculo já pronunciou o seu nome e não sei onde fica a minha casa.
Rente aos muros, coração descalço, persigo o vento da noite, o murmúrio de uma voz.

Mário Rui de Oliveira, «O Vento da Noite», in O Vento da Noite

Várias estações preparam o amadurecimento dos frutos. Não é diferente com os passos de alguém. Os tempos chegam, correm, noutros se derramam, misturando-se no que lentamente é construído: um caminho.
Talvez o halo da existência humana seja composto sobretudo disso: procurar. A resposta, vindo, logo cede terreno à linha de interrogações que persiste sob o que é dito. E jamais se apazigua esse horizonte. Além da resposta, o chamamento das inumeráveis sendas. Não se consumará a mais alta aprendizagem em devolver a cada coisa a questão mais funda que lhe cabe? Respostas? Viagens interrompidas.
Também os passos em que o labor dos anos se cumpre guardam a semente pronta para morrer. Se há invernos súbitos e medo, se há sombras que petrificam quem lhes toque, nunca cessa a voz do que dá mais vida.
«Peregrino»: outro nome para quem busca. Peregrino, aquele que iniciou a mar-cha desejando achar. Peregrino, aquele que marchando não achou seu achamento. Peregrino, aquele que de não achar se achou. Primeiro, os passos para chegar. Depois, em cada passo a chegada: esvaziar-se; deixar entrar os rostos do silêncio.
Criações Literárias Contemporâneas: uma estação, tempo de vozes entrelaçando-se, na longa escrita do amadurecer que abre o milagre... do não acabar da viagem.

Moisés Ferreira